Sábado, 6 de maio de 2017 às 18:46 em Politica
Ex-diretor da estatal afirma que Lula não só conhecia como comandava o esquema de corrupção na Petrobras.

 

O ex-diretor de Serviços da Petrobras, Renato Duque, indicado para o cargo pelo ex-ministro José Dirceu, afirmou nesta sexta-feira (5), em depoimento ao juiz Sergio Moro, que o ex-presidente Luiz Inácio Lula Silva não apenas “tinha pleno conhecimento de tudo” como “detinha o comando” do esquema de corrupção que desviou dinheiro de contratos da estatal para o PT (Partido dos Trabalhadores).

 

Duque, condenado em quatro processos da Lava Jato por corrupção e lavagem de dinheiro a penas que somam 57 anos de prisão, relatou três reuniões com o petista em que teria ficado claro, para ele, que o ex-presidente “conhecia tudo” e que o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto “era um braço que atuava com Lula”.

 

No depoimento (veja os trechos abaixo), o ex-diretor da Petrobras disse que todos no PT sabiam do esquema de propina paga por empresas nos contratos com a estatal.

 

Renato Duque: Quando existia um contrato, seja ele qual fosse que corria uma licitação normal, o partido ou o tesoureiro do partido normalmente procurava a empresa pedindo contribuição. E a empresa normalmente dava porque era uma coisa institucionalizada na companhia, isso. O Paulo Roberto cuidava da área do PP, Partido Progressista, a área do PT, eu que cuidava.

 

Sergio Moro: Mas o senhor não conversou com ninguém a respeito dessas contribuições?

 

Duque: Todos sabiam.

 

Moro: Todos quem?

 

Duque: Todos do partido, desde o presidente do partido, tesoureiro, secretário, deputados, senadores. Todos sabiam que isso ocorria.

 

Moro: Isso foi desde o seu ingresso? Desde que o senhor assumiu esse cargo já havia essa situação?

 

Duque: Já havia essa situação.

 

Moro: E permaneceu até a sua saída?

 

Duque: Permaneceu até a minha saída.

 

Moro: Quem era responsável por arrecadar esses recursos para o Partido dos Trabalhadores junto às empresas?

 

Duque: Eram os tesoureiros. Inicialmente o Delúbio, posteriormente o Paulo Ferreira e depois o Vaccari.

 

Moro: O senhor tratou com algum deles sobre esse assunto?

 

Duque: Tratei com os três.

 

Divisão da propina

 

Renato Duque explicou também a divisão do dinheiro desviado da Petrobras para funcionários da própria empresa e para o PT, e falou sobre os milhões que juntou pra ele próprio no esquema de corrupção com a participação do ex-gerente da área de Serviço e também delator Pedro Barusco.

 

Duque: Desse 1%, o que o Barusco chamava de Casa ficava com metade, 0.5%, e o resto ia para o partido. Mas isso era uma referência, em nem todos os contratos se praticava esse percentual. Se alguém se recusasse a pagar não tinha penalidade. Barusco disse que eu era preguiçoso em relação ao trato com dinheiro. Não era questão de preguiça. Quando atingiu determinado valor, aquilo para mim era mais do que suficiente. Quando atingiu US$ 10 milhões eu pensei: ‘É muito mais do que eu preciso e minha terceira geração’.

 

Vaccari

 

Renato Duque também contou que foi o então presidente Lula quem indicou João Vaccari Neto para cuidar da arrecadação de propina de fornecedores da Petrobras para o PT. Segundo Duque, quem lhe contou sobre a decisão de Lula foi o então ministro do Planejamento, Paulo Bernardo.

 

Duque: Eu conheci o Vaccari em 2007, não era tesoureiro, mas começou a atuar na arrecadação. Ficou uma coisa à parte.

 

Moro: E por quê?

 

Duque: Porque o então presidente Lula determinou isso. Eu fui chamado a Brasília e essa pessoa falou: ‘Olha você vai conhecer uma pessoa indicada pelo… ’ e fez esse movimento (Duque faz um gesto como que tocando a barba). Não citava o nome. O presidente Lula era conhecido como Chefe, Grande Chefe, Nine, ou pelo movimento (tocar a barba). ‘Você vai receber uma pessoa que está sendo indicada e ele vai conversar com você, ele vai ser agora quem vai atuar junto às empresas que trabalham com a Petrobras. Paulo Bernardo chegou e disse que a partir de agora vai ter contato com Vaccari. Ele vai fazer os contatos com as empresas.

 

Moro: O que o Lula tem a ver com isso?

 

Duque: Segundo o Paulo Bernardo, o Lula é que tinha determinado isso.

 

Moro: O Paulo Bernardo é que afirmou?

 

Duque: Sim senhor.

 

Licitações

 

Renato Duque também falou sobre as informações que o tesoureiro petista João Vaccari tinha sobre as licitações da Petrobras.

 

Duque: O Vaccari tinha uma capacidade tão grande de interlocução, vamos chamar assim. Ele sabia muito mais de resultados de licitações do que eu. Eu não precisava passar informações para o Vaccari procurar as empresas como muita gente pensa. Ele mesmo já sabia e procurava, ele comentava: empresa tal não está pagando.

 

Sete Brasil

 

Segundo Renato Duque, o dinheiro de propina da Sete Brasil teria abastecido contas do PT, de José Dirceu e de Lula. E o então ministro Antonio Palocci teria gerenciado os valores desviados para o presidente.

 

Duque apresentou uma versão detalhada para o acordo de divisão do dinheiro sujo.

 

Duque: Ele, Barusco, diz pro Vaccari que tinha fechado com todos os estaleiros a participação de 1% em cima dos contratos, sendo que Kepel e Jurong tinha fechado em 0,9%. Ele propôs nessa ocasião uma divisão ao estilo que ele praticou na Engenharia com metade para a Casa e metade pro partido. O Vaccari falou: ‘Nesse assunto especifico eu vou consultar o Antonio Palocci’; porque o Lula encarregou o Palocci de cuidar desse assunto. Aí Vaccari vai, tem a conversa, retorna e diz que a posição não é de meio a meio; é 1/3 para a Casa e 2/3 para partido. A parte de 1/6 daria US$ 33 milhões; multiplicado por seis daria quase US$ 200 milhões. Os 2/3 do partido político, Vaccari me informou que iriam para o PT, José Dirceu e Lula. A parte do Lula seria gerenciada pelo Palocci.

 

Encontros com Lula

 

Renato Duque relatou ainda três encontros com o ex-presidente Lula. Nas três ocasiões, Duque já não trabalhava na Petrobras e Lula já havia deixado a Presidência da República. Mesmo assim, segundo Duque, o ex-presidente demonstrou interesse e muito conhecimento sobre um determinado contrato da Petrobras.

 

Pergunta: No momento que a Lava Jato começou a existir, e ficou claro através do doutor Paulo Roberto que essa investigação poderia alcançar partidos políticos, alguém lhe procurou para pedir que o senhor tomasse providencias e evitasse que o senhor fosse surpreendido com documentação?

 

Duque: Eu tive, após a saída da Petrobras, três encontros com o Lula. Um em 2012, um 2013 e o último em 2014. Nesse encontro de 2012, pra mim ficou muito evidente, fiquei surpreendido com o conhecimento que ele tinha sobre esse projeto de sondas. Ele começou a fazer perguntas sobre as sondas, uma delas porque não tinha sido assinado o contrato ainda, já que tinha sido aprovado em abril. Falei: ‘Presidente, nem sabia que não tinha sido, estou fora da empresa, não sei responder’. Então eu fiquei surpreendido porque, naquela hora, eu, Lula e Vaccari, ficou claro para mim que o nível de informação, ele conhecia tudo e falando esse tipo de coisa na frente do Vaccari e na minha frente. Poxa, tá comandando tudo. O Vaccari realmente era um braço que atuava pro Lula.

 

Preocupação de Lula

 

Renato Duque também afirmou que Lula se mostrou preocupado com a possibilidade de que o ex-diretor da Petrobras tivesse recebido propina em contas no exterior.

 

 

Duque: Aí teve um segundo encontro que, da mesma maneira, ele fez perguntas sobre sondas porque não estava recebendo até então, em 2013. Perguntou se eu sabia por que que as empresas não estavam pagando, eu não soube responder também. E por fim, no último encontro em 2014, já com a Lava Jato em andamento, ele me pergunta se eu tinha uma conta na Suíça com recebimentos da empresa SBM, dizendo que a então presidente Dilma tinha recebido a informação que um ex-diretor da Petrobras teria recebido dinheiro numa conta da Suíça da SBM. Eu falei: ‘Não tenho dinheiro da SBM nenhum, nunca recebi dinheiro da SBM’. Ele falou assim: ‘Olha, presta atenção no que vou te dizer, se tiver alguma coisa não pode ter, entendeu? Não pode ter nada no teu nome, entendeu?’ Eu entendi, mas o que eu ia fazer? Não tinha mais o que fazer. Aí ele falou que ia conversar com a Dilma que ela estava preocupada com esse assunto e queria tranquiliza-la. Mas, nessas três vezes, ficou claro, muito claro pra mim que ele tinha pleno conhecimento de tudo e detinha o comando. (Com informações do Jornal Nacional/TV Globo)

 

 

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